Lauro Ney Batista
Este texto é uma adaptação para a Web da brochura que preparei em 1998, para acompanhar minhas ilustrações sobre os aviões de Martin Drewes em exposições e como referência à autenticidade do trabalho, caso as obras fossem vendidas.
Martin Drewes, que terminou a guerra como Major e com um score de 52 vitórias aéreas, foi um dos principais Ases da Caça Noturna alemã, ao lado de Wolfgang Schnaufer, Hans-Joachim Jabs, Wolfgang Falk e Helmut Lent (que morreu em ação em 7/10/44).
Este trabalho sobre os aviões de Drewes é duplamente especial, pois além de ser a primeira obra de um artista brasileiro de Aviation Art a ser autografada por um Ás da Luftwaffe, ela ainda representa o avião de um Às que mora atualmente no Brasil.
O trabalho é composto de 3 aerografias, ilustrando os perfis dos aviões mais representativos comandados pelo piloto, sendo eles:
1- Messerschmitt Bf 110C-4, M8+DM, avião pilotado pelo então Leutnant Drewes em sua primeira unidade de combate, a 4./ZG 76, baseada em Wittmundhafen, em fevereiro de 1941.
2- Messerschmitt Bf 110D-3, da 4./ZG 76, ilustra a participação de Drewes no "Sonderkommando Junk", uma missão especial no Iraque, em maio de 1941.
3- Messerschmitt Bf 110G-4, G9+WD, em Leeuwarden, Holanda, em setembro de 1944. Este último quadro ilustra o avião de Drewes, já Kommandeur do III/NJG 1, ao final da Guerra.
Estes "profiles", descritos detalhadamente a seguir, foram elaborados com base em extensa pesquisa histórica e com a colaboração pessoal de Martin Drewes, a quem tive o imenso prazer de conhecer e que autografou pessoalmente cada original. Este é sem dúvida um trabalho pioneiro em nosso país, pois até então nenhuma obra deste porte havia sido realizada por um artista ou historiador brasileiro.
Messerschmitt Bf 110 C-4 M8+DM, Wittmundhafen, 1941

A ilustração representa um Bf 110C-4 utilizado por Drewes no 4./ZG 76, Haifischgruppe, baseado em Wittmundhafen, em fevereiro de 1941. Na época, Drewes utilizou dois aviões com este prefixo, sendo o segundo possivelmente um D-1. Infelizmente, ele não tem referências sobre o WN (Werk Nummer) de nenhum dos aviões.
O avião ostenta a pintura padrão da época, consistindo na camuflagem "splinter" em RLM 70 Schwarzgrün e RLM 71 Dunkelgrün na parte superior e RLM 65 Hellblau, na inferior. O nariz carrega a boca de tubarão (haifisch), característica do II Gruppe. Na matrícula, "M8" é o indicativo do esquadrão e "DM" a identificação individual do avião. As letras são em preto (RLM 22 Schwarz), com o "D" em branco, identificando a 4. Staffel.
O aparelho está equipado com o armamento padrão de fábrica (4 MG 17 de 7,9mm e dois canhões MG FF, de 20mm, no nariz e uma metralhadora 7,9mm manual da cabine) e operava sem suportes para bombas e sem tanques suplementares.
É interessante notar que, embora tecnicamente um caça, o Bf 110 utilizava o esquema de identificação de bombardeiros, consistindo numa combinação de números e letras, sendo que o par de caracteres à esquerda da Balken Creuz indicava o Geschwader, a primeira letra à direita da cruz identificava o avião dentro da Staffel e a última letra, a Staffel dentro do Geschwader. As letras e algarismos eram geralmente em preto, sendo a letra de identificação da Staffel (primeira à direita da cruz) pintada na cor da Staffel (branco para a 1.Staffel, vermelho para a 2.Staffel e amarelo para a 3.Staffel, repetindo essa sequência para a quantidade de Gruppen - geralmente três - que tenha o Geschwader).
Messerschmitt Bf 110 D-3, Sonderkommando Junk, Iraque, 1941

A ilustração representa o Bf 110D-3 utilizado por Drewes na 4./ZG 76, no Iraque, em maio/junho de 1941.
Durante a campanha dos Bálcans, o II Gruppe do ZG 76 foi transferido para a Grécia. A 5. e 6. Staffel participaram do ataque a Creta, enquanto a 4. Staffel, com Drewes, foi enviada para o Iraque, compondo, juntamente com alguns aviões do ZG 26 (Bf 110) e KG 4 (He 111), o chamado Sonderkommando Junk, destinado a dar apoio às forças iraquianas contra os ingleses (algo parecido como o que ocorreu durante a Guerra Civil Espanhola).
Os aviões ostentavam a pintura original do esquadrão, consistindo de RLM 76 Lichtblau por todo o aparelho, com manchas em RLM 74 Graugrün e RLM 75 Grauviolett nas partes superiores. Nessa época, o ZG 76 estava lotado na missão de escolta de comboios no Mar do Norte e esta era a camuflagem usual para este teatro.
Nas laterais da fuselagem, uma grande mancha irregular, possivelmente em RLM 76 (mais claro que na pintura original porque era mais novo), foi utilizada para cobrir as marcas alemãs antes da aplicação das insígnias iraquianas, o mesmo ocorrendo nas asas. Foi mantida a cor branca, de identificação da Staffel, na carenagem de cobertura do armamento do nariz e nas pontas dos spinners.
Os capôs dos motores aparecem num tom mais claro, contrastante com a camuflagem. De acordo com Drewes, esta cor deveria ter sido um cinza claro (RLM 76 ou outra tonalidade semelhante, e não amarelo, como mostrado na maioria das publicações), possivelmente resultado de uma repintura durante os trabalhos de manutenção e preparação para a aplicação das marcas iraquianas.
Comparando-se as fotos do arquivo pessoal de Drewes (aviões da 4./ZG 76 usados no Iraque) com as de aviões do ZG 26 e dos demais integrantes do II/ZG 76 que operavam nos Bálcans àquela época, pode-se notar uma sensível diferença: Nos aviões que ostentavam os característicos capôs amarelos do Teatro do Mediterrâneo, a pintura apresentava um contorno bem definido. Nos aparelhos da 4./ZG 76 que estiveram no Iraque, no entanto, a pintura do capô era irregular, chegando a avançar para cima da asa em alguns aviões, denotando que houve pouca preocupação com a definição de limites durante a pintura.
Esta aparente "displicência" permite supor que, tal como nas manchas aplicadas nas asas e fuselagem para cobrir as marcas alemãs, a tinta utilizada nos capôs, embora contrastante com a pintura circundante, era de uma cor empregada em camuflagem e não uma cor de marcação, como o amarelo. Aliás, nesse aspecto, Drewes me garantiu que não era amarelo: "Não me lembro a cor, mas não era amarelo. Eu voava com o motor ao meu lado, se fosse amarelo eu me lembraria".
É importante ressaltar que na ocasião, conforme relatado por Drewes, os integrantes do II Gruppe não conheciam os planos, nem para o Iraque (11 de maio), nem para o ataque à Creta (dia 21). Na manhã do dia 11, "...ao chegar no aeródromo de Athen-Tatoi, as tripulações da 4./ZG 76 se surpreenderam ao ver aqueles emblemas desconhecidos (iraquianos) em seus aviões".
Dessa forma, devido à pressa e principalmente ao sigilo reinantes durante a preparação da operação "Iraque", é até possível que o pessoal de manutenção tenha pintado erroneamente os aviões com as marcas amarelas do Teatro Mediterrâneo quando a 4. Staffel esteve em Atenas para ser preparado para a missão. Depois, esclarecido o real destino dos aparelhos, estes teriam sido repintados com as marcas iraquianas e o amarelo, recém aplicado nos capôs, coberto com a mesma tinta utilizada para cobrir as demais marcas alemãs.
O avião de Drewes possuía armamento padrão de fábrica (4 MG 17 de 7,9mm e dois canhões MG FF, de 20mm, mais a metralhadora manual de 7,9mm da cabine) e estava equipado com grandes tanques suplementares de 900 litros, sob as asas, para vôos de longo percurso.
Messerschmitt Bf 110G-4, G9+WD, Leeuwarden, Holanda, 1944

A ilustração representa o Bf 110G-4 utilizado por Drewes em setembro de 1944, como Gruppenkommandeur do III/NJG 1, baseado em Leeuwarden, Holanda.
Em 1944, quando já no comando do III Gruppe do NJG 1, Drewes possuía dois aparelhos: O G9+MD, Wr.N. 720410, avião sem marcas especiais, utilizado normalmente para as missões noturnas e o G9+WD, sem radar, para uso diurno e formalidades, o qual ostentava suas marcas de vitória.
O G9+MD foi perdido na noite de 20 para 21 de julho de 1944, quando a carga de bombas de um Lancaster contra o qual atirava explodiu, destruindo o Bf 110, o qual foi abandonado em vôo. Após este ocorrido, o G9+WD foi equipado com radares e demais equipamentos, passando a ser empregado nas missões noturnas.
Em 27/07/44, Drewes recebeu a Ritterkreuz, condecoração que passou a ostentar em seu avião, juntamente com as marcas de 47 vitórias confirmadas.
O G9+WD, assim como o MD, era todo camuflado em RLM 76 Lichtblau, com manchas suaves e esparsas em RLM 75 Grauviolett. As letras eram em preto, com o "W" em verde claro, possivelmente RLM 83 Lichtgrün. Na lateral dianteira da fuselagem, logo abaixo do pára-brisas, era aplicado o emblema "England Blitz" do esquadrão.
Segundo o Unteroffizier Heinrich Vorholt, armeiro de Drewes, o armamento do WD consistia em 4 metralhadoras MG 17 (no lugar dos 2 MK108 padrão) e dois canhões MG 151/20 mm no nariz e mais 2 MG FF Schräge Musik, instalados em tandem logo atrás do banco do piloto, num ângulo de 82°, sendo municiados pelo radiotelegrafista. O metralhador dispunha de uma MG 81Z (dupla).
Sobre o armamento fora de padrão, Drewes explicou que o problema com os canhões de 30mm era que os obuses tinham uma força explosiva muito grande e arrancavam grandes pedaços do avião atacado. Como os ataques por trás eram feitos muito de perto (dentro do alcance visual, à noite e sem iluminação, ao contrário dos esquadrões "Wilde Sau"), esses destroços poderiam avariar o seu próprio avião. Drewes então pediu que os canhões fossem substituidos por armas de 7,9mm (na verdade, o que os armeiros faziam era trocar o nariz do 110G por um nariz de 110D ou C, que já continha as metralhadoras). "Em caso de necessidade, os MG de 20mm completavam o trabalho", finalizou Drewes.





Sobre Martin Drewes
Martin Drewes nasceu em Lobmachtersen bei Braunschweig (hoje Salzgitter), região de Hannover, Alemanha, em 20 de outubro de 1918.
Em novembro de 1937 entrou para a Wehrmacht (exército alemão) como Fahnenjunker (aspirante a oficial) no Panzer-Regiment 6.
Em 1938, entrou para a Escola de Oficiais, em Munique, tendo sido promovido para Leutnant em 01/08/39.
Em setembro de 1939, por solicitação de julho de 1938, foi transferido para a Luftwaffe, tendo feito curso em vários tipos de equipamento e terminando o treinamento em aviões Bf 110 Zerstöerer, no início de 1941.
Em fevereiro de 1941, foi designado para o II/ZG 76 (4. Staffel), baseado em Wittmundhafen, Gruppe que, na época, realizava escolta de comboios no Mar do Norte, equipado com Messerschmitt Bf 110.
No final de abril de 1941, o II/ZG 76 é transferido para a Grécia. Enquanto a 5. e 6. Staffel aguardavam ordens, a 4. Staffel (com Drewes) foi enviada para o Iraque.
A partir de 11/05/41 aviões do ZG 26 (Bf 110) e KG 4 (He 111) juntaram-se à 4./ZG 76, formando o Sonderkommando Junk, para apoiar as forças iraquianas contra os ingleses. A Staffel de Drewes se estabeleceu em Mossul, no norte do Iraque e em Kirkuk (centro petrolífero).
Em 20/05/41, o então Leutnant Drewes anotou sua primeira vitória aérea, abatendo um Gloster Gladiator inglês.
No final de maio, com a queda do regime pró-Eixo iraquiano, o Sonderkommando Junk foi desmobilizado. A 4./ZG 76 operou por algum tempo em Aleppo, equipada com Bf 110 Tropenausführung (tropicalizados) e posteriormente voltou ao trabalho de escolta no teatro europeu, se instalando em Leeuwarden, Holanda.
No final de 1941, o II/ZG 76 foi transferido para a caça noturna, em Stuttgart-Echterdingen, sendo duas Staffel incorporadas ao III/NJG 3, em Stade, para defesa de Hamburgo e uma ao NJG 4.
Em 17/01/43 anota a primeira vitória noturna.
Em fevereiro é Staffelkapitaen da 7./NJG 3.
Em agosto torna-se Staffelkapitaen da 11./NJG 1 e em fevereiro de 1944 é nomeado Kommandeur do III/NJG 1.
Em 27/07/44, Drewes, então com 47 vitórias confirmadas, é condecorado com a Ritterkreuz.
Em dezembro é promovido a major e em abril de 1945, recebe a Folha de Carvalho para a Ritterkreuz.
Terminou a guerra com um crédito de 52 vitórias aéreas: um Gladiator, um Spitfire e 50 bombardeiros quadrimotores, sendo 7 em combates diurnos e o restante na caça noturna, entre eles 37 Avro Lancaster.
Após a Guerra, Martin Drewes veio para o Brasil e mora atualmente em Santa Catarina.
Este trabalho é dedicado a Drewes e aos demais pilotos da Luftwaffe que lutaram na Segunda Guerra Mundial. Aos ases e aos anônimos. Homens cujo gênio e amor pela aviação fizeram superar fronteiras políticas no durante e no pós-guerra, conquistando o respeito e a admiração de todos os verdadeiros entusiastas da aviação.
© 1998-2002 Lauro Ney Batista
Este artigo (texto e imagens) só poderá ser reproduzido mediante autorização por escrito do autor.
Para retornar ao índice de artigos, use o botão "Voltar" na barra do navegador.
Se você acessou esta página por outros meios, clique no link abaixo para entrar no site.